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O Processo de compra de Diesel A nas refinarias

Bruno Valêncio · 16 de setembro de 2026

O processo de compra de Diesel A (o diesel puro, antes da mistura com biodiesel) pelas distribuidoras junto à Petrobras é uma operação de altíssima complexidade logística e financeira. Não funciona como ir a um atacado comprar quando o estoque acaba; trata-se de um modelo rígido, altamente regulado pela Agência Nacional do Petróleo (ANP) e regido por contratos de longo prazo.

Para entender a dinâmica que afeta diretamente o preço e a disponibilidade do combustível na ponta (como no agronegócio), é preciso observar o ciclo mensal de compras.

O Ciclo Mensal de Compra

A operação rodada pelas distribuidoras segue um cronograma estrito baseado em "M" (o mês de entrega do produto).

  1. O Pedido (A Nomeação): Mês M-1 (Geralmente até o dia 10 do mês anterior)

A distribuidora acessa o sistema da Petrobras e informa exatamente qual volume de Diesel A precisará para o próximo mês, dividindo esse volume por polo/terminal de entrega (ex: Refinaria de Paulínia, Terminal de Rio Grande).

  1. Análise e Rateio (As Cotas): Mês M-1 (Segunda quinzena)

A Petrobras cruza todos os pedidos das distribuidoras com a sua capacidade de produção nas refinarias e importação programada. Se a soma dos pedidos for maior que o combustível disponível, a estatal aciona o Rateio. Ela aprova os volumes com base no histórico de compra de cada distribuidora, limitando o pedido (as famosas "cotas").

  1. O Aceite: Mês M-1 (Fim do mês)

A Petrobras devolve à distribuidora o "Volume Aceite". A partir deste momento, o acordo está selado para o mês seguinte: a Petrobras tem a obrigação de disponibilizar aquele volume, e a distribuidora tem a obrigação contratual de retirá-lo.

  1. Janelas de Retirada (As Entregas): Mês M (Durante o mês de vigência).

A retirada do produto não pode ser feita de uma vez para não travar os terminais. As entregas são fracionadas em janelas (diárias ou semanais). A logística pode ser por dutos (para bases próximas às refinarias), cabotagem (navios para outras regiões litorâneas) ou rodoviária/ferroviária (caminhões-tanque carregando nas bases).

O Sistema de Multas e Punições

O mercado de combustíveis não tolera ineficiência. Como as refinarias e os dutos operam em fluxo contínuo, qualquer erro de previsão de quem compra afeta o sistema inteiro. Por isso, os contratos da Petrobras possuem cláusulas punitivas severas:

  • Multa de Subretirada (Take-or-Pay): Esta é a cláusula mais crítica. Se a distribuidora pedir 10 milhões de litros, a Petrobras aprovar, mas a distribuidora só conseguir buscar 7 milhões de litros ao longo do mês, ela pagará uma multa pesada sobre os 3 milhões que "ficaram para trás" (geralmente fora de uma margem de tolerância de 5% a 10%). Isso impede que distribuidoras façam pedidos artificialmente altos apenas para garantir cota.

  • Multa de Sobrerretirada: Se a distribuidora retirar mais produto do que o volume que foi aceito no mês (quando permitido emergencialmente), esse volume excedente costuma sofrer penalidades ou ser cobrado com sobretaxas atreladas a custos de importação ou ao mercado spot (à vista).

  • Multas Financeiras (Atrasos): Em caso de atrasos nos pagamentos das faturas, incidem multas diárias rigorosas (geralmente de 0,1% ao dia, podendo ter teto de 10%), que são frequentemente descontadas de forma automática pela Petrobras nos faturamentos seguintes ou em garantias bancárias retidas.

Regulação da ANP e o "Custo de Oportunidade"

Toda essa dança comercial não ocorre livre de fiscalização. A ANP regula os estoques e a comercialização para garantir o abastecimento nacional.

  1. Estoques Mínimos: Pela Resolução ANP 949/2023, tanto a Petrobras (produtora) quanto as distribuidoras são obrigadas a manter estoques semanais médios de diesel para garantir a segurança do abastecimento.

  1. Monitoramento de Crise: Quando há risco de escassez (como nas crises recentes de importação), a ANP aciona resoluções de "Sobreaviso" (como a 954/2023), obrigando Petrobras, distribuidoras e importadores a reportarem diariamente seus estoques, datas de chegada de navios e preços, sob pena de intervenção e multas milionárias.

  1. A Política da Petrobras: Atualmente, a Petrobras utiliza uma estratégia comercial baseada no "Custo de Oportunidade". Isso significa que a estatal não repassa a volatilidade diária do dólar e do petróleo internacional imediatamente, mas calcula qual seria a melhor alternativa de mercado (produzir aqui, importar ou exportar). Isso protege o mercado interno de picos bruscos, mas é exatamente o que desestimula as importadoras privadas quando o preço internacional sobe muito, jogando toda a carga de pedidos no colo da estatal e forçando o sistema de cotas explicado acima.

A Falta de Diesel no Rio Grande do Sul

É por esse exato motivo que o problema estoura no agronegócio do Rio Grande do Sul ultimamente. O setor agrícola tem janelas de consumo sazonais altíssimas. Durante o plantio de verão, o consumo dispara.

Quando a distribuidora recebe da Petrobras apenas a sua "média histórica" e se recusa a importar o volume extra necessário para cobrir o pico da safra, o produto seca nas bases. Os TRRs (que abastecem as fazendas) ficam sem fornecimento ou são obrigados a disputar o pouco combustível que restou a preços exorbitantes no mercado à vista.

A situação não é uma "falta física" evidente de produto, mas sim um estrangulamento financeiro e contratual. Isso descreve perfeitamente o cabo de guerra entre as distribuidoras e a Petrobras.

A Dinâmica do Estrangulamento

Para entender por que as distribuidoras forçam essa compra com a Petrobras, precisamos olhar para a matemática do negócio:

  • A Fuga do Prejuízo: Não é apenas uma questão de "não querer" importar, mas de fuga de prejuízos e maximação de resultados. Se há uma fonte de Diesel A custando R$3,00/L no mercado nacional, porque gastar mais que o dobro para comprar o produto importado? Esse é o pensamento da distribuição, preocupação com investidores, com a diretoria, com seus resultados.

  • O Efeito Funil na Petrobras: Para fugir do custo financeiro e imputar a responsabilidade por falta de produto no mercado nacional à Petrobras, todas as distribuidoras maximizam ou inflam seus pedidos no sistema da estatal simultaneamente.

  • A Tesourada do Rateio: A Petrobras, ciente de que seu parque de refino já opera perto do limite (e tampouco querendo assumir o custo de importar caro para revender barato), aplica a regra de proteção. Ela avalia o histórico da distribuidora e corta o excesso: "Você sempre comprou 100 comigo e importou 20. Este mês você me pediu 120. Não vou aprovar, sua cota permanece 100".

  • O Vácuo no Mercado: Aquele volume complementar que as distribuidoras costumam trazer de fora simplesmente não entra no país, e a falta ocorre.

Portanto, a falta de diesel neste momento, latente no Rio Grande do Sul, não é falta de refino de diesel, falta de produto no mercado internacional, por mais que estejamos em um problema grande de produção de petróleo e refino no mundo, mas sim é efeito de interesses e decisões puramente econômicos, isso mesmo que você está lendo. As distribuidoras não estão preocupadas em suprir o mercado, e não estão importando Diesel A para atender a demanda, essas estão preocupadas simplesmente em cumprir estritamente e juricamente os contratos de suas redes, manter o estoque regulatório da ANP e maximizar margens. Para isso o supply na Petrobras (mais barato) atende plenamente aos interesses.

No entanto, o cenário geopolítico e a defasagem, se tornam uma narrativa oportunista para que o segmento de distribuição se aproveite da falta forçada de diesel para justificar reajustes e alavancar margens com a menor oferta do mercado nacional, simplesmente vendendo Diesel B por preços mais caros sem que a Petrobras esteja reajustando os custos do diesel A, e com uma menor importação do diesel A mais caro.

Se pergunte, se nesse momento as importações estão inviabilizadas, isso quer dizer que no estoque das distribuidoras o mix de diesel importado caiu. Logo, o custo ponderado do Diesel Importado de R$6,50/L é muito menor, e esse estoque hoje é composto majoritamente por Diesel A da Petrobras, muito mais barato. 

Me diz então: Onde está a redução do seu preço de compra de Diesel B nesse momento de poucas importações?

O mercado brasileiro está pagando sobre o Óleo Diesel o preço da especulação da distribuição, não efetivamente o aumento de custo por importações realizadas de Diesel A.

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